Como calcular salário líquido CLT: INSS progressivo e IRRF passo a passo
O salário líquido é o valor que efetivamente cai na sua conta todo mês. Para chegar nele, o empregador desconta dois tributos obrigatórios diretamente da folha de pagamento: o INSS (contribuição à Previdência Social) e o IRRF (Imposto de Renda Retido na Fonte). Outros descontos como vale-transporte e plano de saúde também podem reduzir o valor final.
O cálculo segue uma sequência obrigatória. Primeiro você calcula o INSS sobre o salário bruto. Depois subtrai o INSS do salário bruto para chegar à base de cálculo do IR. Em seguida deduz R$ 189,59 por cada dependente declarado. O resultado é a base de cálculo do IRRF, sobre a qual você aplica a tabela progressiva e o redutor 2026. Por fim, soma os dois descontos e subtrai do bruto. O que sobra é o salário líquido.
Salário Líquido = Bruto − INSS − IRRF − Outros Descontos Um exemplo concreto para salário bruto de R$ 5.000 em 2026, sem dependentes e sem outros descontos. O INSS progressivo resulta em R$ 501,51. A base do IR fica em R$ 4.498,49. Pela tabela progressiva 2026, o IRRF seria R$ 336,67 — mas como o salário bruto é de exatamente R$ 5.000, o redutor 2026 zera o imposto. O salário líquido é R$ 4.498,49, ou seja, 90% do bruto.
Tabela INSS 2026: como o cálculo progressivo funciona na prática
Desde novembro de 2020, o INSS passou a funcionar de forma progressiva, igual ao Imposto de Renda. Antes dessa mudança, a alíquota incidia sobre o salário inteiro, o que criava situações absurdas onde um aumento salarial pequeno resultava em queda no líquido.
Em 2026, com o salário mínimo em R$ 1.621,00, as faixas foram reajustadas. Para um salário de R$ 5.000:
- Os primeiros R$ 1.621,00 pagam 7,5% = R$ 121,58
- A faixa de R$ 1.621,01 a R$ 2.902,84 paga 9% = R$ 115,37
- A faixa de R$ 2.902,85 a R$ 4.354,27 paga 12% = R$ 174,17
- A faixa de R$ 4.354,28 a R$ 5.000,00 paga 14% = R$ 90,40
- Total INSS: R$ 501,51
Existe um teto de contribuição. Para salários acima de R$ 8.475,55, o INSS não aumenta mais. O desconto máximo possível em 2026 é de R$ 988,09. Quem ganha R$ 20.000 paga o mesmo INSS que quem ganha R$ 8.475,55.
Tabela IRRF 2026 e a nova isenção para quem ganha até R$ 5.000
Em 2026, a reforma do Imposto de Renda (Lei 15.270/2025) trouxe a maior mudança na tributação da pessoa física em décadas. Quem tem salário bruto de até R$ 5.000 está completamente isento de IRRF — independentemente do valor calculado pela tabela progressiva. Para rendas entre R$ 5.000 e R$ 7.350, existe um redutor gradual que diminui o imposto de forma linear.
A tabela progressiva base também foi atualizada. O primeiro limite de isenção subiu de R$ 2.259,20 para R$ 2.428,80, e as parcelas de dedução foram recalibradas. A fórmula do redutor é: Redutor = R$ 978,62 − (0,133145 × salário bruto). A R$ 7.350 de bruto, o redutor chega a zero e a tabela progressiva passa a valer integralmente.
Para quem não tem dependentes e não tem outros descontos, a base do IR é o bruto menos o INSS. Quem tem dependentes reduz essa base em R$ 189,59 por cabeça. Com dois filhos, a redução é de R$ 379,18 na base antes de calcular o imposto. Dependendo da faixa salarial, essa dedução pode representar uma economia real de R$ 14 a R$ 52 por dependente por mês.
Quanto desconta de INSS e IRRF para salários de R$ 2.000 a R$ 15.000 em 2026
Para entender o impacto real dos descontos em cada faixa salarial em 2026, veja os valores aproximados sem dependentes e sem outros descontos.
R$ 2.000 bruto: INSS de R$ 150,00, base IR de R$ 1.850,00 (isento pela tabela + isento pelo redutor). Líquido: R$ 1.850,00. Percentual líquido: 92,5%.
R$ 3.000 bruto: INSS de R$ 248,60, base IR de R$ 2.751,40 (isento pelo redutor — bruto ≤ R$ 5.000). Líquido: R$ 2.751,40. Percentual líquido: 91,7%.
R$ 5.000 bruto: INSS de R$ 501,51, IRRF R$ 0 (isento pelo redutor 2026). Líquido: R$ 4.498,49. Percentual líquido: 90,0%.
R$ 6.000 bruto: INSS de R$ 615,51, base IR de R$ 5.384,49, IRRF de R$ 69,55 (após redutor de R$ 179,93). Líquido: R$ 5.314,94. Percentual líquido: 88,6%.
R$ 10.000 bruto: INSS de R$ 988,09 (teto), base IR de R$ 9.011,91, IRRF de R$ 1.569,25. Líquido: R$ 7.442,66. Percentual líquido: 74,4%.
R$ 15.000 bruto: INSS de R$ 988,09 (teto), base IR de R$ 14.011,91, IRRF de R$ 2.944,75. Líquido: R$ 11.067,16. Percentual líquido: 73,8%.
A novidade de 2026 é a faixa entre R$ 5.000 e R$ 7.350: trabalhadores nessa faixa pagam muito menos IR do que pagavam em 2025. Acima de R$ 10.000, o efeito do redutor some e a carga tributária é semelhante à de anos anteriores.
O que mais pode ser descontado do salário CLT além de INSS e IRRF
O salário líquido real frequentemente é menor do que o cálculo de INSS + IR, porque há outros descontos autorizados pela CLT que reduzem ainda mais o valor recebido. Os mais comuns são:
Vale-transporte: O empregado contribui com até 6% do salário bruto para o custeio do benefício. Se o custo real do transporte diário for menor que 6% do salário, o desconto é limitado ao custo real. Quem não usa transporte público não tem desconto nem benefício.
Plano de saúde: Quando a empresa oferece plano coletivo, a participação do empregado é descontada em folha. O valor varia muito conforme o plano, faixa etária e número de dependentes incluídos. Planos com coparticipação têm mensalidade menor, mas cobranças por uso.
Previdência privada: Contribuições para planos PGBL ou Vgbl coletivos patrocinados pelo empregador são descontadas em folha e podem ser deduzidas na declaração anual de IR, até 12% da renda tributável.
Adiantamento salarial: Se você recebeu adiantamento quinzenal, o valor já pago é descontado no fechamento da folha. Não é desconto real — é apenas antecipação do que já foi pago.
Pensão alimentícia judicial: Quando determinada por decisão judicial, é descontada diretamente em folha, com prioridade sobre qualquer outro desconto.
Salário bruto vs salário líquido: quanto o empregador realmente gasta e quanto você leva
O custo real de um funcionário CLT para a empresa é sempre maior que o salário bruto. Sobre o bruto, o empregador ainda paga encargos patronais que não aparecem no holerite mas saem do orçamento do negócio.
Os principais encargos patronais incluem INSS patronal de 20% (ou 22,5% para alguns segmentos), FGTS de 8%, contribuições ao sistema S (Senai, Sesi, Senac, Sesc) de cerca de 3,1%, Seguro Acidente de Trabalho (SAT) de 1% a 3%, e o custo das férias com 1/3 constitucional e 13° salário rateado ao longo do ano.
Na prática, o custo total de um funcionário que recebe R$ 5.000 de bruto fica entre R$ 7.500 e R$ 8.500 para a empresa, dependendo do setor e do porte. O trabalhador leva pra casa entre R$ 4.000 e R$ 4.300, dependendo dos descontos. A diferença vai para o Estado e para os fundos obrigatórios como o FGTS.
CLT vs PJ: para qual salário bruto compensa mudar de regime
Essa é uma das perguntas mais frequentes de profissionais qualificados. A resposta depende do salário, das despesas como PJ e do quanto você usa os benefícios CLT. Mas existe uma regra prática amplamente usada no mercado: o contrato PJ precisa pagar entre 30% e 40% a mais que o salário bruto CLT para ser equivalente.
Isso porque o CLT inclui FGTS (8% do bruto, que você só recebe em situações específicas), 13° salário (equivale a 8,33% ao mês rateado), férias remuneradas com 1/3 (cerca de 11,1% ao mês rateado), aviso prévio proporcional e estabilidade no emprego. Quando você soma tudo, a remuneração real do CLT é aproximadamente 35% maior que o salário bruto pago em dezembro.
Para um salário CLT de R$ 8.000 brutos (líquido de cerca de R$ 6.100), o contrato PJ equivalente precisaria pagar R$ 10.800 a R$ 11.200 por mês. Desse valor, você ainda paga Imposto de Renda PJ (DAS se for MEI, Simples Nacional, ou IRPJ + CSLL se for Lucro Presumido), INSS como autônomo (20% sobre o pró-labore ou contribuição mínima), e suas próprias despesas de contabilidade, saúde e férias.
A vantagem real do PJ aparece acima de R$ 15.000 a R$ 20.000, onde a carga tributária do CLT fica entre 26% e 28% e os regimes simplificados do PJ podem ficar em 15% a 18%. Abaixo disso, a proteção do CLT frequentemente compensa financeiramente.
Perguntas frequentes sobre cálculo de salário líquido
O desconto do INSS é progressivo igual ao IR?
Sim, desde novembro de 2020 o INSS passou a ser calculado de forma progressiva, igual ao Imposto de Renda. Antes dessa mudança, a alíquota incidia sobre o salário inteiro. Hoje, cada faixa do salário tem sua alíquota própria: 7,5% sobre a parte até R$ 1.518,00, 9% sobre o trecho seguinte até R$ 2.793,88, 12% até R$ 4.190,83, e 14% sobre o que excede esse valor até o teto de R$ 8.157,41. Acima do teto, o desconto não aumenta — máximo de R$ 908,85.
Dependentes reduzem o INSS ou só o IRRF?
Só o IRRF. A dedução de R$ 189,59 por dependente é aplicada exclusivamente na base de cálculo do Imposto de Renda Retido na Fonte. O INSS é calculado sobre o salário bruto integral, sem qualquer abatimento por dependentes. Cada dependente reduz diretamente o IR, mas não altera o desconto do INSS. Para dependentes com rendimentos próprios, existem regras adicionais que devem ser verificadas com um contador.
Vale-transporte desconta quanto do salário?
O desconto do vale-transporte é de 6% sobre o salário bruto, limitado ao custo real do trajeto diário. Se o transporte público mensal custa R$ 200 e 6% do salário bruto é R$ 300, o desconto será de R$ 200 — o menor valor. Se não há transporte público no trajeto ou o empregado usa veículo próprio, não há desconto nem benefício. Trabalhadores que exercem função em home office integral podem ficar sem o benefício nos dias trabalhados remotamente.
O 13° salário desconta INSS e IR da mesma forma?
O 13° salário tem regras específicas. O INSS incide normalmente sobre o valor bruto do 13°, usando as mesmas faixas progressivas do mês normal. Já o IRRF sobre o 13° é calculado separadamente: usa a tabela progressiva aplicada sobre o valor do 13° menos as deduções de dependentes, mas sem deduzir o INSS do 13° da base do IR. O imposto retido na fonte do 13° é definitivo e não entra na base de cálculo da declaração anual de ajuste.
Quanto preciso ganhar de bruto para ter líquido de R$ 5.000?
Para líquido de R$ 5.000 sem dependentes e sem outros descontos, você precisa de aproximadamente R$ 6.500 a R$ 6.800 de salário bruto. Nessa faixa, o INSS fica em torno de R$ 680 e o IRRF entre R$ 620 e R$ 700. Use a calculadora acima ajustando o salário bruto até o resultado líquido atingir o valor desejado. A cada real a mais no bruto acima de R$ 4.665, você leva R$ 0,725 líquido — a alíquota marginal efetiva é 27,5% de IR mais 14% de INSS até o teto.